Mudei de casa. Atualizem os links, amigos queridos:
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Segunda-feira, Dezembro 11, 2006
Domingo, Novembro 26, 2006
Como seria - post IX
Dos sonhos que tenho, eu guardo todos que aparecem você. Eu guardo nas minhas lembranças secretas os sonhos que tive e não realizei.
Eu lembro quando chegou naquela manhã fria. Eu estava preparando o café da manhã junto de D. Márcia. Ela me pediu os talheres preferidos, os copos mais cristalinos e as porcelanas mais belas. Separei tudo na ordem como ela gostava, as toalhas tão brancas como sua camisa e suas meias que vi quando cruzou o pé ao sentar no sofá.
Lembro do assunto também. Senhor Alfredo dizia que mais tarde lhe mostraria o relatório oficial dos lucros da empresa, e também lhe mostraria o quarto de hóspedes. Se eu soubesse que seria você, teria botado o melhor lençol, ou um meu, quem sabe, para você sentir meu cheiro.
Eu passei toda aquela manha entretida entre arrumar os talheres e pensar nos seus passos na escada até chegar à porta principal. Como pude pensar no som dos passos de que nunca vi?
Lembro das minhas mãos debaixo da torneira, seus passos, a campainha. Foram segundos eternizados em mim. Quando Madalena abriu a porta e você disse.
- Bom dia, senhora. O Dr. Alfredo me aguarda.
Minhas mãos, pés e pernas tremeram. Sua voz ecoou em mim. E o vento a tocar meu rosto. Não sei dizer se foi apenas o vento, ou sua luz vinda a mim.
Por Deus eu não estou mentindo que senti tudo isso. Por Deus eu rezei todas as noites para não deixar de olhar nos seus olhos.
Mais:
8º
http://e-letras.blogspot.com/2006/05/como-seria-post-vii.html
7º
http://e-letras.blogspot.com/2006/05/como-seria-post-vi.html
6º
http://e-letras.blogspot.com/2006/04/como-seria-post-vi.html
5º
http://bluewoman.blogspot.com/2006/02/como-seria-post-v.html
4º
http://bluewoman.blogspot.com/2005/10/como-seria-post-vii.html
3º
http://bluewoman.blogspot.com/2004/12/como-seria-post-iii.html
2º
http://bluewoman.blogspot.com/2004/10/como-seria-post-ii.html
1º
http://bluewoman.blogspot.com/2004/08/como-seria.html
Eu lembro quando chegou naquela manhã fria. Eu estava preparando o café da manhã junto de D. Márcia. Ela me pediu os talheres preferidos, os copos mais cristalinos e as porcelanas mais belas. Separei tudo na ordem como ela gostava, as toalhas tão brancas como sua camisa e suas meias que vi quando cruzou o pé ao sentar no sofá.
Lembro do assunto também. Senhor Alfredo dizia que mais tarde lhe mostraria o relatório oficial dos lucros da empresa, e também lhe mostraria o quarto de hóspedes. Se eu soubesse que seria você, teria botado o melhor lençol, ou um meu, quem sabe, para você sentir meu cheiro.
Eu passei toda aquela manha entretida entre arrumar os talheres e pensar nos seus passos na escada até chegar à porta principal. Como pude pensar no som dos passos de que nunca vi?
Lembro das minhas mãos debaixo da torneira, seus passos, a campainha. Foram segundos eternizados em mim. Quando Madalena abriu a porta e você disse.
- Bom dia, senhora. O Dr. Alfredo me aguarda.
Minhas mãos, pés e pernas tremeram. Sua voz ecoou em mim. E o vento a tocar meu rosto. Não sei dizer se foi apenas o vento, ou sua luz vinda a mim.
Por Deus eu não estou mentindo que senti tudo isso. Por Deus eu rezei todas as noites para não deixar de olhar nos seus olhos.
Mais:
8º
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1º
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Quarta-feira, Novembro 08, 2006
Vertigem
Não valeu do tempo para a chuva acertar minha cabeça. Se eu pudesse voltar atrás e contar os passos seria setenta e sete até as águas do céu cairem sobre minha cabeça. Era segunda-feira, eu segurava minha bolsa azul turquesa com uma das mãos, na outra as flores na direção do meu quadril. Flores vermelhas e brancas para decorar meu escritório.
Meus óculos estavam na ponta do nariz. Cada obstáculo na calçada me dava vertigem, achava que ia cair. Tonteira da idade. Capenguei para um lado, quase dei com a cabeça no muro pichado pelas gangues da cidade.
É desses muros que quero falar. Eles são feio, coloridos e feios. Quando vejo esses desenhos imagino moleques famintos comprando tintas para pintar os muros, imagino-os com o cabelo caindo nos olhos, o joelho ralado e marcas de qualquer tipo num rosto mal lavado. Imagino mãos duras com unhas pretas e dedos no nariz. Mãos no saco, mãos na lata de cerveja. Cerveja com a lata preta de sujeira.
E como um flash essa imagem some da minha memória e vêm outras. Imagino um garoto de cabelo da moda, calça da moda, camiseta bem passada. Um rapaz cheiroso com cigarro Mallboro no bolso comprando as tintas também, tirando da carteira o cartão de crédito do papai enquanto solta a fumaça do cigarro. Imagino seu carro bonito, música alta e um olhar sorridente para a orla da praia. E desce do carro com seus amigos para escrever no muro.
Pronto, pensamente desfeito. Agora imagino um garoto lendo o jornal, indignado com as notícias, um garoto tomando café na padaria, contando as moedas do bolso. O dinheiro dá. O garoto vai até a loja e compra tintas. Tintas para pintar o muro.
E eu deixando a chuva escorrer pelos meus braços, tento armar o guarda-chuva, tento não pensar nos rabiscos da parede a minhas costas. Não consigo. Eles estão lá! Os três pintam paredes brancas, os três brincam de aventuras, brincam de prazer. E quantos outros garotos mais! Eu parada a espera do ônibus na chuva, perco em mim meus desejos secretos. Queria estar seca, queria flores vivas.
A chuva estragou meu dia e não tirou a tinta da parede.
Meus óculos estavam na ponta do nariz. Cada obstáculo na calçada me dava vertigem, achava que ia cair. Tonteira da idade. Capenguei para um lado, quase dei com a cabeça no muro pichado pelas gangues da cidade.
É desses muros que quero falar. Eles são feio, coloridos e feios. Quando vejo esses desenhos imagino moleques famintos comprando tintas para pintar os muros, imagino-os com o cabelo caindo nos olhos, o joelho ralado e marcas de qualquer tipo num rosto mal lavado. Imagino mãos duras com unhas pretas e dedos no nariz. Mãos no saco, mãos na lata de cerveja. Cerveja com a lata preta de sujeira.
E como um flash essa imagem some da minha memória e vêm outras. Imagino um garoto de cabelo da moda, calça da moda, camiseta bem passada. Um rapaz cheiroso com cigarro Mallboro no bolso comprando as tintas também, tirando da carteira o cartão de crédito do papai enquanto solta a fumaça do cigarro. Imagino seu carro bonito, música alta e um olhar sorridente para a orla da praia. E desce do carro com seus amigos para escrever no muro.
Pronto, pensamente desfeito. Agora imagino um garoto lendo o jornal, indignado com as notícias, um garoto tomando café na padaria, contando as moedas do bolso. O dinheiro dá. O garoto vai até a loja e compra tintas. Tintas para pintar o muro.
E eu deixando a chuva escorrer pelos meus braços, tento armar o guarda-chuva, tento não pensar nos rabiscos da parede a minhas costas. Não consigo. Eles estão lá! Os três pintam paredes brancas, os três brincam de aventuras, brincam de prazer. E quantos outros garotos mais! Eu parada a espera do ônibus na chuva, perco em mim meus desejos secretos. Queria estar seca, queria flores vivas.
A chuva estragou meu dia e não tirou a tinta da parede.
Sábado, Outubro 07, 2006
1982
Foi no inverno de 1982, fazia duas semanas que eu estava de férias na chácara da minha família. Uma bela construção com varanda e vista para o pomar. As cores vinham de um verde escuro lá das montanhas e seguiam clareando entre o amarelo das flores até o caminho de terra que dava para os pés de amoras.
Tudo parecia uma coisa só: o tom claro da casa e a grama seca contornando a estradinha de terra, que, distante, emendava com o pôr-do-sol e as montanhas.
Eu adorava passar minhas férias nessa casa, apesar do frio, era bom demais o vento forte vindo das montanhas. Era uma força a empurrar minha pele, chegava a doer, mas eu amava. E não perderia a oportunidade de sentir novamente o vento forte tocando o meu rosto.
Além da natureza sempre presente o amor maior era sentir o cheiro do casaco da minha avó quando ela me abraçava. Minha querida avó Luisa, sempre pronta para um sorriso amigo, um abraço carinhoso e uma palavra confortável. Melhor do que qualquer terapeuta, melhor que qualquer remédio para dores de cabeça. Era sempre com minha avó que eu recuperava todas as forças necessárias para continuar.
Porém, a cada ano que passava, me doía mais vê-la sentada na cadeira de balanço apenas a olhar o movimento da casa. Ela já não tinha força em suas pernas e braço para pegar as frutas do pomar, tão pouco para nos presentear com deliciosas broas no café da manha. Isso machucava demais. Doía minha alma como nunca mais doeu depois que ela se foi. No inverno tão triste de 1982.
Fica guardado em mim o silencio da casa quebrado pelo estalar do chão de madeira, pelo ruído lento das janelas e o ultimo suspiro de minha avó.
Quantas noites acordei com seus sussurros de dor. Quantos noites olhei para o céu tentando entender que força era essa que sugava a vitalidade de minha avó. Tão difícil compreender. Tão difícil tentar buscar uma solução para nossa alma. Porque o corpo dela já não está mais aqui.
Volta a doer tanto essas lembranças. Chego a sentir as alegrias que vivi ao seu lado. E dói o coração, a cabeça, que agora se contenta com aspirinas.
Minha avó dizia que a vida é um belo caminho onde estamos sempre fazendo escolhas rumo ao destino maior, a morte.
Tudo parecia uma coisa só: o tom claro da casa e a grama seca contornando a estradinha de terra, que, distante, emendava com o pôr-do-sol e as montanhas.
Eu adorava passar minhas férias nessa casa, apesar do frio, era bom demais o vento forte vindo das montanhas. Era uma força a empurrar minha pele, chegava a doer, mas eu amava. E não perderia a oportunidade de sentir novamente o vento forte tocando o meu rosto.
Além da natureza sempre presente o amor maior era sentir o cheiro do casaco da minha avó quando ela me abraçava. Minha querida avó Luisa, sempre pronta para um sorriso amigo, um abraço carinhoso e uma palavra confortável. Melhor do que qualquer terapeuta, melhor que qualquer remédio para dores de cabeça. Era sempre com minha avó que eu recuperava todas as forças necessárias para continuar.
Porém, a cada ano que passava, me doía mais vê-la sentada na cadeira de balanço apenas a olhar o movimento da casa. Ela já não tinha força em suas pernas e braço para pegar as frutas do pomar, tão pouco para nos presentear com deliciosas broas no café da manha. Isso machucava demais. Doía minha alma como nunca mais doeu depois que ela se foi. No inverno tão triste de 1982.
Fica guardado em mim o silencio da casa quebrado pelo estalar do chão de madeira, pelo ruído lento das janelas e o ultimo suspiro de minha avó.
Quantas noites acordei com seus sussurros de dor. Quantos noites olhei para o céu tentando entender que força era essa que sugava a vitalidade de minha avó. Tão difícil compreender. Tão difícil tentar buscar uma solução para nossa alma. Porque o corpo dela já não está mais aqui.
Volta a doer tanto essas lembranças. Chego a sentir as alegrias que vivi ao seu lado. E dói o coração, a cabeça, que agora se contenta com aspirinas.
Minha avó dizia que a vida é um belo caminho onde estamos sempre fazendo escolhas rumo ao destino maior, a morte.
Terça-feira, Outubro 03, 2006
Saindo um pouco dos Contos e Crônicas
Do livro: "A arte de escrever bem - Um guia para jornalistas e profissionais do texto" de Dad Squarisi e Arlete Salvador
O livro não é muito bom, não. Um pouco clichê. Mas considero isso interessante:
Teste a legibilidade do texto:
Em grego, é hedone. Em português, hedonismo. Numa e outra língua, o significado se mantém. É prazer. A sensação gostosa virou doutrina da filosofia. Segundo ela, o prazer deve ser considerado o objetivo principal dos atos humanos.
Alguns concordam. Outros não. Mas uma coisa é certa. Ninguém gosta de sofrer. A regra vale para a leitura. Texto difícil não tem vez. E não é de hoje. Montaigne, no século XVI, disse com todas as letras: “Ao encontrar um trecho difícil, deixo o livro de lado”. Por quê? “A leitura é forma de felicidade”, respondeu ele.
A observação não se restringe a livros. Engloba jornais, revistas, cartas comerciais, redações escolares, receitas de comida gostosa. Sem fisgar o leitor, adeus, emprego! Adeus nota boa! Adeus sobremesa dos deuses! Por isso, roguemos ao senhor. Que ele ilumine mentes, penas e teclados. E cada um faça a sua parte.
Como avaliar o índice de dificuldade do escritor? O assunto começou a preocupar os americanos há uns sessenta anos. Pesquisas sobre a leitura do texto jornalístico despertaram o interesse de professores e alunos de várias universidades. Um dos resultados foi o teste de legibilidade. Alberto Dines, então do Jornal Do Brasil, adaptou para o português:
Eis a receita:
1. Conte as palavras do parágrafo.
2. Conte as frases. (cada frase termina por ponto)
3. Divida o número de palavras pelo número de frases. Assim você terá a media da palavra/frase do texto.
4. Some a média da palavra/frase do texto com o número de polissílabos
5. Multiplique o resultado opor 0,4 (média de letras da palavra na frase de língua portuguesa)
6. o produto da multiplicação é o índice de legibilidade
Possíveis resultados:
1 a 7: história em quadrinhos
8 a 10: excepcional
11 a 15: ótimo
16 a 19: pequena dificuldade
20 a 30: muito difícil
31 a 40: linguagem técnica
Acima de 41: nebulosidade
O livro não é muito bom, não. Um pouco clichê. Mas considero isso interessante:
Teste a legibilidade do texto:
Em grego, é hedone. Em português, hedonismo. Numa e outra língua, o significado se mantém. É prazer. A sensação gostosa virou doutrina da filosofia. Segundo ela, o prazer deve ser considerado o objetivo principal dos atos humanos.
Alguns concordam. Outros não. Mas uma coisa é certa. Ninguém gosta de sofrer. A regra vale para a leitura. Texto difícil não tem vez. E não é de hoje. Montaigne, no século XVI, disse com todas as letras: “Ao encontrar um trecho difícil, deixo o livro de lado”. Por quê? “A leitura é forma de felicidade”, respondeu ele.
A observação não se restringe a livros. Engloba jornais, revistas, cartas comerciais, redações escolares, receitas de comida gostosa. Sem fisgar o leitor, adeus, emprego! Adeus nota boa! Adeus sobremesa dos deuses! Por isso, roguemos ao senhor. Que ele ilumine mentes, penas e teclados. E cada um faça a sua parte.
Como avaliar o índice de dificuldade do escritor? O assunto começou a preocupar os americanos há uns sessenta anos. Pesquisas sobre a leitura do texto jornalístico despertaram o interesse de professores e alunos de várias universidades. Um dos resultados foi o teste de legibilidade. Alberto Dines, então do Jornal Do Brasil, adaptou para o português:
Eis a receita:
1. Conte as palavras do parágrafo.
2. Conte as frases. (cada frase termina por ponto)
3. Divida o número de palavras pelo número de frases. Assim você terá a media da palavra/frase do texto.
4. Some a média da palavra/frase do texto com o número de polissílabos
5. Multiplique o resultado opor 0,4 (média de letras da palavra na frase de língua portuguesa)
6. o produto da multiplicação é o índice de legibilidade
Possíveis resultados:
1 a 7: história em quadrinhos
8 a 10: excepcional
11 a 15: ótimo
16 a 19: pequena dificuldade
20 a 30: muito difícil
31 a 40: linguagem técnica
Acima de 41: nebulosidade
Quarta-feira, Setembro 13, 2006
Vida Pálida
Eu disse a Pedro retirar dos vasos aquelas folhas secas. Pareciam folhas de outra estação. Tão velhas, tão pálidas – como a pintura da casa de praia. Eu disse tantas coisas a Pedro antes de partirmos, mas ele não me deu ouvidos. Falei o quão importante eram as flores novas nos vasos. Expliquei que a cor da casa significava mais do que a dispensa cheia de enlatados. Pedro não me deu ouvidos. Comprou feijoada enlatada, azeitonas, palmitos, azeites finos... e nada de tintas novas para a casa de praia...Quando entramos no carro ele nem se quer me olhou. A quanto tempo não ganho um beijo apaixonado... Pregou os olhos a frente do volante e foi. Cento e dez, cento e trinta marcava o ponteiro do automóvel.
Importância para o carro ele dá: todo ano é um troca-troca de carros, muda a cor, troca as rodas, coloca aparelhos modernos de som. E eu fico em segundo plano. Peço um novo colégio para as crianças; é caro. Peço roupas novas para mim;é caro também.O que nos resta é viajar para a casa de praia no feriado. Mas acho triste. Toda aquela fantasia que tivemos decepou com o tempo. Foi-se embora com a tinta rosa da casa – que agora mais parece um borrão de cores mal feitas. Tenho pena. Mamãe, se viva, não iria gostar de ver no que tornou nossa casa. Ainda bem que não acredito em espíritos.
Ontem eu contei, antes de dormir, as últimas vezes que meus pedidos foram aceitos por Pedro. De oito, apenas um. Mas eu penso que, na verdade, sou eu que peço demais. Devo ser realmente uma gorda chata a pedir as coisas.Mas Pedro, vamos trocar as portas da casa de praia. Não, vamos trocar a churrasqueira.
Deve ser isso a diferença entre homens e mulheres. Eles buscam a diversão simples, elas buscam perfeição onde não existe. Se eu acreditasse em espíritos pediria para nascer homem na próxima encarnação.
Importância para o carro ele dá: todo ano é um troca-troca de carros, muda a cor, troca as rodas, coloca aparelhos modernos de som. E eu fico em segundo plano. Peço um novo colégio para as crianças; é caro. Peço roupas novas para mim;é caro também.O que nos resta é viajar para a casa de praia no feriado. Mas acho triste. Toda aquela fantasia que tivemos decepou com o tempo. Foi-se embora com a tinta rosa da casa – que agora mais parece um borrão de cores mal feitas. Tenho pena. Mamãe, se viva, não iria gostar de ver no que tornou nossa casa. Ainda bem que não acredito em espíritos.
Ontem eu contei, antes de dormir, as últimas vezes que meus pedidos foram aceitos por Pedro. De oito, apenas um. Mas eu penso que, na verdade, sou eu que peço demais. Devo ser realmente uma gorda chata a pedir as coisas.Mas Pedro, vamos trocar as portas da casa de praia. Não, vamos trocar a churrasqueira.
Deve ser isso a diferença entre homens e mulheres. Eles buscam a diversão simples, elas buscam perfeição onde não existe. Se eu acreditasse em espíritos pediria para nascer homem na próxima encarnação.
Sábado, Julho 22, 2006
O pó da rua
Do inicio de tudo. Não eram simples sapatos empoeirados no guarda-roupa velho, da casa velha, que a emprega (velha) há tempos não limpava. Era o sapato que me trazia de volta a dualidade. Os dois lados sempre presentes. O famoso anjinho e diabinho, um em cada lado da cabeça dizendo o que fazer. Plenitude? Ah! Isso é para pessoas fingidoras. Aquelas típicas que fingem ser boazinhas, fingem prazer.
Do inicio de tudo. Foi no dia que mandei Severina embora de casa. Eu não agüentava mais aquela empregada patética dizendo o que eu deveria fazer. Várias vezes eu cheguei cansada querendo apenas minha cama, ainda com a roupa de trabalho, sem banho, sem tirar a maquiagem. E lá vinha Severina me dizer para tomar um banho, para tirar o pó da rua. No início eu achava graça nessa história do pó da rua. Pra Severina tudo se esumia em tirar o pó da rua. Mas com o tempo, sua cara patética, seu cabelo fora do lugar e aquela
bermuda de lycra com a camiseta da campanha política começaram a me irritar.Todo dia era o tal de tirar o pó da rua.
Que irritação, Severina! Eu dia a ela. Forte, brava, segura. A coitada chorou toda a noite. Escutei do meu quarto os seus soluços contidos. E não fiz nada. Depois desse dia ela emudeceu. Não falava mais do pó da rua. E aquele seu silêncio fez de mim pior do que já fui.
Nunca fiz questão de ser boazinha. Nunca fiz questão de dar minhas roupas velhas - mas em ótimo estado - para Severina, eu não queria descobrir a sua dignidade. Eu não queria sentir que eu tinha pena dela.
Todo fim de semana Severina pegava o trem e ia visitar sua mãe no interior. Chegava segunda-feira uma hora mais tarde, foi o combinado. Eu não queria sentir pena, eu não queria sentir compaixão por aquela mulher tão simples, tão digna, tão fazedora perfeita de seu trabalho. Eu não queria ter a certeza de que eu - com minha conta no banco, meu carro, meu apartamento lindo e bem decorado colaboravam para a miséria de Severina. O chinelo gasto, as roupas tão sem cor, o ônibus que ela pegava todos os dias - lotado, fedido, sujo. Porque o mundo externo de Severina era o que eu via dentro de mim, mas eu não queria deixar claro a mim que a podridão dos meu pensamento era por causa de sua passividade. Severina, Severina.
Hoje acordei e não consegui trabalhar - fiquei olhando o sapato empoeirado no guarda roupa. Faz uma semana que Severina não está mais aqui.
Uma semana que o pó da rua continua crescendo nos móveis. Eu não me importo, só fico triste em ver minha coleção de taças de vinho empoeiradas na cristaleira. De resto, não sinto nada.
O problema é que Severina me desmistificou. Fez de mim parte do pó da rua. Severina fez de mim uma metáfora. O pó da rua que voltava todos os dias para atrapalhar o seu trabalho. Descobri que Severina não gostava de mim, gostava da casa, com o continuo pó da rua que ela limpava e limpava, mas eu - o maior pó da rua - não percebi. E quem sabe o contrário disso também seja uma verdade, que Severina gostava de mim e queria realmente me livrar do pó que sou.
Do inicio de tudo. Foi no dia que mandei Severina embora de casa. Eu não agüentava mais aquela empregada patética dizendo o que eu deveria fazer. Várias vezes eu cheguei cansada querendo apenas minha cama, ainda com a roupa de trabalho, sem banho, sem tirar a maquiagem. E lá vinha Severina me dizer para tomar um banho, para tirar o pó da rua. No início eu achava graça nessa história do pó da rua. Pra Severina tudo se esumia em tirar o pó da rua. Mas com o tempo, sua cara patética, seu cabelo fora do lugar e aquela
bermuda de lycra com a camiseta da campanha política começaram a me irritar.Todo dia era o tal de tirar o pó da rua.
Que irritação, Severina! Eu dia a ela. Forte, brava, segura. A coitada chorou toda a noite. Escutei do meu quarto os seus soluços contidos. E não fiz nada. Depois desse dia ela emudeceu. Não falava mais do pó da rua. E aquele seu silêncio fez de mim pior do que já fui.
Nunca fiz questão de ser boazinha. Nunca fiz questão de dar minhas roupas velhas - mas em ótimo estado - para Severina, eu não queria descobrir a sua dignidade. Eu não queria sentir que eu tinha pena dela.
Todo fim de semana Severina pegava o trem e ia visitar sua mãe no interior. Chegava segunda-feira uma hora mais tarde, foi o combinado. Eu não queria sentir pena, eu não queria sentir compaixão por aquela mulher tão simples, tão digna, tão fazedora perfeita de seu trabalho. Eu não queria ter a certeza de que eu - com minha conta no banco, meu carro, meu apartamento lindo e bem decorado colaboravam para a miséria de Severina. O chinelo gasto, as roupas tão sem cor, o ônibus que ela pegava todos os dias - lotado, fedido, sujo. Porque o mundo externo de Severina era o que eu via dentro de mim, mas eu não queria deixar claro a mim que a podridão dos meu pensamento era por causa de sua passividade. Severina, Severina.
Hoje acordei e não consegui trabalhar - fiquei olhando o sapato empoeirado no guarda roupa. Faz uma semana que Severina não está mais aqui.
Uma semana que o pó da rua continua crescendo nos móveis. Eu não me importo, só fico triste em ver minha coleção de taças de vinho empoeiradas na cristaleira. De resto, não sinto nada.
O problema é que Severina me desmistificou. Fez de mim parte do pó da rua. Severina fez de mim uma metáfora. O pó da rua que voltava todos os dias para atrapalhar o seu trabalho. Descobri que Severina não gostava de mim, gostava da casa, com o continuo pó da rua que ela limpava e limpava, mas eu - o maior pó da rua - não percebi. E quem sabe o contrário disso também seja uma verdade, que Severina gostava de mim e queria realmente me livrar do pó que sou.
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